Coordenador da COREME, André Justino, fala sobre a profissão do MFC

07:54:00

O médico de Família e Comunidade, André Luís Andrade Justino, mestre em Saúde Pública pela Universidade Federal de Santa Catarina, é o coordenador do Programa de Residência em Medicina de Família e Comunidade da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro. Ele é uma autoridade nesta área da medicina já adotada com sucesso no mundo inteiro e que, infelizmente, ainda está engatinhando no Brasil. Neste artigo, ele aborda o tema com grande propriedade, destacando o papel e a importância desta nova especialidade médica, a medicina de família, que o município do Rio já percebeu ser a saída para garantir a saúde da população. http://www.avozdaserra.com.br/colunas/53/12256/quem-tem-muitos-medicos-nao-tem-nenhum Quem cuida de sua saúde? Tente responder a esta pergunta citando apenas um nome. Difícil, não? Porém, se você perguntar a mesma coisa a alguém da maioria dos países europeus e até de algumas cidades brasileiras, certamente irá se surpreender. Todos sabem dizer, na hora, o nome e o sobrenome do médico e do enfermeiro que acompanham sua saúde e a quem podem recorrer nos momentos de aperto. Pois bem. Um dos conceitos da estratégia de saúde da família — por nós conhecida pela sigla de ESF — é justamente esta: vincular pessoas a pessoas. Saber os nomes de seu médico de família e a de seu enfermeiro não é um luxo e não significa, muito menos, que a pessoa é pobre, como muitos pensam. A filosofia de trabalho não é esta e, sim, contrário a ela. Antigamente, os médicos iam com sua maletinha cuidar de seus pacientes nos mais distantes confins de suas cidades. Lógico que esta medicina não era acessível a todos e, com raras exceções, só quem podia pagar bem dispunha desses cuidados. Hoje em dia, o papel do médico generalista é, sem dúvida, muito maior, devendo abarcar muito mais conhecimento. Costumo dizer que quem tem muitos médicos não tem nenhum. Se você tiver vários especialistas cuidando de sua saúde, pode estar mais em risco do que seguro. Segundo a pesquisadora Bárbara Starfield, a terceira causa de mortalidade nos Estados Unidos se deve a alguma intervenção desnecessária ou mal indicada feita por um profissional de saúde. E, obviamente, a chance disso ocorrer é tanto maior quanto mais especialistas estiverem envolvidos nos cuidados com sua saúde. É muito comum ouvir ou mesmo ler que o médico que cuida da mulher é o ginecologista, o que cuida do idoso é o geriatra, o dos ossos é o ortopedista, da cabeça o neurologista e assim por diante. Este é um engano brutal, mas está fortemente arraigado na falta de organização, tanto do sistema público quanto privado de saúde. Vou além. Essa forma de organização gera mais custos, menos satisfação e piores resultados. Sim, os especialistas que cuidam de determinadas partes do corpo, de gênero ou faixa etária têm um papel importantíssimo em várias situações, mas insisto em afirmar, estas são pouco frequentes. Na maior parte das vezes, cuidar de pessoas é papel do médico de família. O custo dos serviços de saúde pode não parecer um dado importante à primeira vista, mas se reflete em todos nós, cidadãos, pois para ser capaz de oferecer um serviço com qualidade à população, o governo necessariamente gastará mais, o que vai redundar em mais impostos. Vai repercutir também nos serviços privados, com contas maiores e planos de saúde cada vez mais caros. Este fator fica claro — aliás, claríssimo — quando comparamos países desenvolvidos, que dispõem de um sistema de saúde organizado com outros que não possuem. Vários estudos comparam os sistemas de saúde do mundo, demonstrando indicadores os mais diversos. Comparemos a situação da Inglaterra e dos Estados Unidos, dois países ricos, desenvolvidos, cujos povos têm a mesma origem, a mesma raiz cultural. O povo inglês é dotado de um sistema de saúde valioso e muito bem organizado, com uma atenção primária forte. Qualquer cidadão inglês tem seu médico de família e recorre a ele diante de algum problema e é este profissional que irá ou não indicar um outro especialista. Sob certo aspecto, é o que estamos projetando para o Brasil e, em algumas cidades, já começamos a vislumbrar. Já o sistema americano lembra muito mais o brasileiro como um todo, ou seja, é privado e leva boa parte dos investimentos do governo em saúde. Se estou com dor de cabeça, vou ao neurologista, com dor de estômago, ao gastroenterologista e assim por diante. A percepção geral é que isso é bom, já que estaria associado a uma pseudo-sensação de liberdade. Infelizmente, os estudos mostram que não é bem assim, pois gera mais insatisfação, mais efeitos adversos e piores resultados. Comparando estes dois países, fica evidente que o custo por habitante em saúde é absurdamente mais alto nos Estados Unidos. Dados da OMS comprovam que os EUA gastam cerca de US$ 6.500 ao ano por habitante, enquanto na Inglaterra este custo seria de US$ 2.500. E tem mais. As amputações por complicação de diabetes e a mortalidade infantil são muito mais baixas na Inglaterra que nos Estados Unidos. Além disso, os EUA passaram pelo vexame de ser um dos poucos países desenvolvidos em que a taxa de mortalidade materna, em vez de cair, dobrou nos últimos 20 anos. Apesar de contarmos com o SUS, o Brasil ainda está indeciso no que diz respeito ao sistema de saúde adotado. Aqui, o uso dos planos de saúde é incentivado e até subsidiado com renúncia fiscal, apesar dos mesmos serem mais caros e pouco eficientes. O leitor talvez não saiba, porém, que mais da metade dos recursos governamentais em saúde vai para os planos de saúde, que cobrem apenas cerca de 30% da população. E convenhamos, até quem dispõe de um plano muitas vezes se vale do serviço público, pois o mesmo dificilmente arca com ações de prevenção, como serviços de vacinação/imunização ou procedimentos de altíssimo custo, como transplantes, hemodiálise e outros. Por outro lado, nosso país já dispõe de uma estratégia de saúde da família que cobre mais da metade da população, embora os profissionais de referência nem sempre sejam devidamente qualificados, o que já está começando a mudar, pelo menos em algumas cidades. Importante destacar que o chamado "Médico de Família e Comunidade” é um generalista, mas também um especialista, pois passa por dois anos de residência na área. O curso de especialização é focado no treinamento e no aperfeiçoamento dos profissionais, com conhecimentos sobre as situações de saúde mais frequentes pelas quais todos nós podemos passar ao longo da vida. Também compete ao médico de família defender seus pacientes de intervenções desnecessárias ou mal indicadas, orientando-os no sentido de adotarem medidas preventivas que realmente sejam eficientes e não transformem suas vidas em um medo constante, com regras absurdas e sem fundamento científico. Mas, para chegar lá, precisamos dispor não só do chamado médico de família, mas de uma equipe de profissionais envolvidos nos cuidados com a saúde da comunidade, cada um com suas competências. No município do Rio de Janeiro, a cobertura da Estratégia Saúde da Família era pífia. Depois de uma sucessão de problemas que culminaram até com uma intervenção federal em 2009, ela foi fortalecida e expandida. Basta dizer que em quatro anos, a cobertura da ESF saltou de cerca de 6% para mais de 42%. Atualmente, mais de 2,5 milhões de cariocas dispõem de seu médico de família, seu enfermeiro e seu agente comunitário. Têm consultas regulares nas Clínicas da Família e contam até com visitas domiciliares. Sim, ainda há muito a se fazer e sabemos disso. Precisamos expandir ainda mais a cobertura do serviço, mas estima-se que até 2016 esta chegue até 70% da população do Rio de Janeiro e sejam instaladas mais 130 novas clínicas da família na cidade. Para tanto, outras ações são de extrema importância, como a formação de médicos especialistas em medicina de família e comunidade. Estes devem, necessariamente, ser profissionais altamente qualificados e interessados em praticar uma medicina centrada na pessoa. Por este motivo, os mesmos recebem um treinamento especial que os torna capazes de atender desde a gestação até os últimos dias de vida de alguém. Assim, todas as pessoas atendidas saberão dizer, com orgulho, o nome e o sobrenome de quem cuida delas.

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