Entrevista com a nova Diretoria de Residentes da SBMFC

06:06:00


O Programa de Residência conversou com a nova Diretoria de Residentes da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC) Lais Melo e José Carlos Arrojo. 


1) Gostaríamos de saber mais sobre a trajetória de vocês: de onde são, onde graduaram-se e onde fazem a residência?

José Carlos (JC): Sou de São Paulo, capital, fiz a graduação na Universidade de Santo Amaro (UNISA) e especialização em gestão em saúde na Universidade Estadual Paulista (UNESP). Atualmente sou residente em MFC da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

Laís (L): Nasci no interior do Rio Grande do Norte e passei boa parte da vida em Natal, onde me graduei em medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Lá, pude participar de uma gestão do Centro Acadêmico e de uma ONG chamada IFMSA-Brasil. No momento, sou residente do segundo ano do Programa de Residência em MFC da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro.

2) Para um acadêmico em medicina o que não pode ser deixado de vivenciar durante a graduação?

JC e L: As faculdades de medicina muitas vezes fazem com que o acadêmico entre em contato apenas com um modelo biomédico estrito, confinando o saber e o ensinar a um modelo centrado no tratamento de doenças de órgãos/sistemas específicos. Entendemos que esse modelo deve ser superado e que o aluno deva entrar em contato com todas as potencialidades que o cuidado integral oferece. Assim, estar na APS sob supervisão presencial de um MFC desde o primeiro ano, pode ajudar a mudar essa realidade de formação predominantemente fragmentadora e formar profissionais comprometidos com o cuidado de pessoas na plenitude do conceito de saúde. 

3) Sendo R2, quais as mudanças que a residência trouxe após a graduação?

JC e L: Não é a toa que a residência é padrão-ouro na formação médica após a graduação). Por mais bem estruturada que seja a graduação, acreditamos que ela não é terminal, o que percebemos ao longo de nosso trajeto na residência, quando nos são apresentados conceitos pouco ou nunca abordados anteriormente, e estimulada uma prática médica baseada em evidências e centrada na pessoa. Ser residente em MFC nos faz entender que mais do que a possibilidade de nos aprimorarmos tecnicamente, temos a oportunidade de fazer parte de um time de pessoas que sempre está comprometido em cuidar do próximo da melhor forma possível. Assim, apesar de imbuídos de toda responsabilidade e de todas as extenuantes atividades, cada vez mais temos consciência de que nosso trabalho não se resume à nossa atuação no interior das unidades básicas de saúde ou das clínicas da família, mas que a oportunidade de atuar junto à comunidade nos faz evoluir enquanto profissionais e pessoas.  

4) Quais os principais motivos que levaram vocês a escolher a Medicina de Família e Comunidade como especialidade médica?

JC e L: Para nós dois a palavra que resume a escolha da MFC como especialidade é VÍNCULO. Durante a graduação procuramos participar de diversos tipos de organizações, tais como as ligas acadêmicas, projetos de pesquisa/extensão, dentre outras, para experimentar diferentes realidades das especialidades, porém ao nos depararmos com a extensa gama de possibilidades que o MFC tem dentro do seu campo de atuação e de como está próximo de quem cuida, da realidade onde se insere, percebemos que, se quiséssemos explorar as nossas potencialidades sem perder o olhar integral do ser humano, a especialidade a ser seguida seria a MFC.

5) José Carlos - Em sua visita ao Programa de Residência em MFC da SMS quais foram suas principais impressões sobre o programa no Rio?

O que mais impressionou no programa de residência médica em MFC da SMS do Rio de Janeiro foi o papel central que a residência ocupa dentro de um consistente plano de reforma da Atenção Primária no município. Os residentes contam com preceptoria qualificada em sua formação e com estrutura que possibilita desenvolverem diversas competências, levando ao aumento de sua resolutividade. Dessa forma, acredito que a residência da SMS do Rio possibilita que o MFC, após sua formação, queira se fixar na cidade e contribuir para a garantia de acesso e qualidade da APS carioca.

6) Laís - Sendo R2 que melhoras você identifica no programa do Rio?

Percebo um esforço crescente no nosso programa de residência para que ele se torne cada vez melhor e condizente com a formação de um MFC resolutivo e consciente do seu papel transformador na realidade da APS no Brasil. Além de uma estrutura física adequada para a formação do residente e para a assistência dos pacientes, a qualificação da preceptoria é um dos fatores que mais me chama a atenção, visto que boa parte dela é formada por jovens MFCs, motivados por sua natureza, e abertos para um processo formativo contínuo, alguns deles egressos do nosso programa.

7) Quais pontos positivos e negativos de seus respectivos  programas?

JC: Como um dos pontos positivos da residência em MFC da UNIFESP posso citar nosso currículo que privilegia a resolutividade na formação, nos expondo ao contato com os especialistas focais em diversos cenários e ambulatórios, além da atuação clássica nas Unidades Básicas de Saúde, sem, no entanto, perdermos nossa essência enquanto residentes de MFC. Nesses espaços ocorre o intercâmbio de conhecimentos, onde nos são reforçadas competências específicas que temos que levar para a APS, ao mesmo tempo em que ensinamos aos especialistas focais muito sobre a Medicina Centrada na Pessoa e sobre Prevenção Quaternária. É a nossa maneira de levar a uma instituição tão tradicional o jeito MFC de ser. Outro ponto positivo é o nosso estágio de medicina rural via Projeto Saúde e Cidadania em Fronteiras, onde realizamos, em parceria com a Marinha do Brasil, atendimento regular às comunidades ribeirinhas da região Amazônica. Esse é o momento de vivenciarmos diferentes realidades de atuação do MFC nos mais diversos contextos da população brasileira. Como ponto fraco posso citar a inserção na obstetrícia, apesar dos esforços de nosso coordenador.

L: A qualidade dos recursos materiais (disponibilidade de referências bibliográficas, ferramentas para o exame físico, dentre outros) e de toda a estrutura da maioria das clínicas da família são alguns dos pontos positivos do nosso programa de residência, além da preceptoria cada vez mais qualificada e a busca pela proporção residente/preceptor possível para um processo ensino-aprendizagem saudável e eficiente. Infelizmente, nem todas as clínicas contam com a estrutura diferenciada das clínicas-modelo, mas ainda assim são adaptadas e seguem a carteira de serviços proposta pela SMS do Rio de Janeiro. Como pontos negativos, destaco principalmente a insuficiência da rede em nos receber nos estágios da atenção secundária e terciária, seja pela falta de locais com recursos humanos e materiais adequados, ou pela própria dificuldade de entendimento por parte dos profissionais desses serviços sobre o processo de formação e atuação do MFC. O fato de termos um programa com uma carga horária relativamente grande voltada para a assistência pode ser avaliado com prós e contras, visto que prejudica, por vezes, a discussão de casos e os processos de vigilância e coordenação do cuidado, ao mesmo tempo em que nos prepara para uma realidade de forte pressão assistencial e de múltiplas atividades requeridas ao MFC devidamente treinado.


8) Quais os principais projetos da atual diretoria de residentes da SBMFC?

JC e L: Nosso compromisso é e sempre será com os médicos residentes em MFC. Assim sendo, precisamos conhecê-los, ouvir seus anseios, suas necessidades e quais são as dificuldades que enfrentam no dia-a-dia. Um de nossos projetos, portanto, é o de melhorar a comunicação com os residentes de todas as regiões brasileiras para ajudá-los propositivamente no seu processo de formação. A realização de eventos científicos e de discussões sobre temas da residência e da MFC de maneira regular, conjuntamente com diversos pólos formadores do Brasil, é também um dos desafios pensados para construir uma rede de compartilhamento de conhecimentos. Outra prioridade é a consolidação da parceria com o Movimento Waynakay Brasil e com a Associação Brasileira de Ligas de Medicina de Família e Comunidade (ALASF). A união entre residentes, jovens médicos de família e acadêmicos é fundamental para que haja a construção do melhor futuro para a MFC, para a APS e para o Sistema Único de Saúde (SUS).

9) Qual o perfil do futuro residente em Medicina de Família e Comunidade?

JC e L: O perfil do futuro residente em MFC é de uma pessoa comprometida em transformar a realidade da APS em nosso país sem esmorecer frente às dificuldades que cotidianamente enfrentamos. Deve ser um profissional disposto a exercer suas atividades com amor, pensando em cuidar e acompanhar das pessoas às quais assistimos priorizando o ser humano que está à sua frente e o contexto familiar e comunitário em que se insere. Deve se utilizar da medicina baseada em evidências e da gestão compartilhada de decisões para ser tecnicamente capaz e resolutivo, ao mesmo tempo em que luta por transformações sociais efetivas que beneficiem a vida da população brasileira, sem esquecer do seu importante papel na formação de  outros jovens MFCs e nos espaços da gestão. Deve ser, antes de tudo, idealista, capaz de acreditar numa APS centrada nos pacientes e suas respectivas realidades.

VEJA TAMBÉM

0 comentários