R2 Bruna realiza estágio em Curitiba

08:10:00




A residente Bruna Futer Charchat, da Clínica da Família Marcos Valadão realizou estágio em Curitiba, Paraná. Abaixo o relato da experiência.

Relatório do estágio optativo
Residente: Bruna Futer Charchat
Período: 3 a 28 de abril de 2017
Clínica: Clínica da Família Marcos Valadão
Local: Unidade de Saúde Solitude - Curitiba/Paraná

1 - Introdução
O período do optativo foi realizado do dia 3 de abril de 2017 ao dia 28 de abril de 2017 na Unidade Solitude, no bairro do Cajuru, em Curitiba. A Unidade conta com 4 equipes, sendo uma de residência. A preceptoria é feita pela Drª Joseane Mouzinho que orienta 3 residentes, uma de primeiro ano e duas de segundo ano. Os residentes do programa de medicina de família de Curitiba passam no primeiro ano da residência por uma unidade de saúde e no segundo ano trocam de unidade e de preceptoria. O horário de atendimento da residência era de 8 horas às 16:30 horas, após isso os residentes se dirigiam aos locais onde teriam aulas/discussões de caso/atividades complementares da residência. Acompanhei as residentes do segundo ano durante atendimento e aulas e pude perceber as diferenças no serviço de saúde prestado em Curitiba, no perfil da população e nas doenças mais prevalentes e no próprio programa de residência.

2 - Atividades Desenvolvidas;

Cumpri o período de 25 dias no mês de abril (do dia 3 ao dia 28). A Unidade de Saúde Solitude está situada no bairro do Cajuru em Curitiba e conta com 4 equipes de saúde da família. A equipe onde a residência atua atende em média 5000 cadastrados. A população não tem grande poder aquisitivo, porém não sobrevive somente com auxílio do governo . Moram em região com saneamento básico, tendo portanto razoável condição de higiene, poucas doenças infecto contagiosas. A equipe de residência conta com a preceptoria da Dra Joseane Mouzinho, suas residentes Dra Karen (residente do primeiro ano), Dra Emile e Dra Elis (residentes do segundo ano), o enfermeiro Pedro, a técnica de enfermagem Silvana e 3 agentes comunitários de saúde (o NASF está presente para dar suporte).  Durante este período, a maior parte do tempo acompanhei as consultas da residente Dra Emile, pude também atender sozinha o que possibilitou conhecer o funcionamento do sistema de registro no prontuário eletrônico.

A rotina se iniciava às 7:30h com reunião entre preceptora e residentes por 30 minutos. O atendimento aos pacientes começava às 8h e terminava com o último agendamento às 12h. Os pacientes eram triados pelo enfermeiro da equipe e orientados em qual horário seriam mais ou menos atendidos. Não havia necessidade dos pacientes de chegarem muito cedo à unidade, pois havia vaga suficiente. Nas agendas eram pacientes em sua maior parte não agendados, somente marcados pelo enfermeiro (que já realizava triagem). A residente do primeiro ano possuía 4 vagas em sua agenda (1 paciente por hora) e as residentes do segundo ano possuíam 8 pacientes agendados (2 pacientes por hora). A preceptora Dra Joseane estava sempre bastante atenta às demandas e às necessidades das residentes. Realizava atendimento conjunto com residentes, presente em todo momento, não deixando que o serviço da unidade interferisse no atendimento da residência dentro do consultório. Destacando a importância da abordagem centrada na pessoa e o bom vínculo com o paciente e sua família.
Após o horário de almoço, 13h o serviço retornava e seguia até às 16:30h. Tínhamos como rotina: visitas domiciliares às segundas, programa com hipertensos e diabéticos às terças, procedimentos às quartas, programa de puericultura às quintas e pré natal às sextas. Os residentes do primeiro ano têm aulas às terças e quintas e os residentes do segundo ano têm aulas terças e quartas (fazendo inclusive grupos de Balint). A cada 15 dias, os residentes do segundo ano têm aula da liga de medicina de família e comunidade na segunda feira e no último sábado do mês pela manhã, residentes do primeiro e do segundo ano também têm aulas, carga horária de aula bem maior para todos os residentes quando comparado ao programa do Rio de Janeiro. Os residentes em Curitiba passam por 2 unidades diferentes durante os 2 anos de residência, 1 ano em cada unidade. Além deste rodízio em diferentes unidades de saúde, possuem rodízio em estágios com especialidades focais como DIP, cardiologia, reumatologia e endocrinologia.
Durante o acompanhamento de consulta, pude atender pacientes com todos os tipos de queixas possíveis tais como depressão, insuficiência cardíaca congestiva, IST's, gestantes com picos hipertensivos, crianças com encaminhamentos das escolas solicitando avaliação para TDAH, pacientes alcoólatras, recém nascidos com dificuldade no ganho de peso. Diferente do que ocorre no Rio de Janeiro, a maior parte dos encaminhamentos para especialistas focais pode ser marcada pelo médico que solicita na UBS. Se houver vaga, a marcação já pode ser realizada para grande parte das especialidades. Há uma integração do programa disponível para registro do prontuário e a marcação das consultas para os especialistas.    Realizávamos às segundas visitas domiciliares. Durante as visitas domiciliares pude notar uma população com um maior poder aquisitivo do que a população com a qual trabalho em Acari, Rio de Janeiro. População com maior nível de instrução, menor número de doenças infecciosas, mais doenças crônicas. Território menos violento, não notamos presença forte de traficantes, armas ou qualquer tipo de "ameaça".
Terças e quintas, no período da tarde, eram os dias dos programas (terça eram hipertensos e diabéticos/quinta eram crianças). Os programas contavam com a presença de toda a equipe dentro da área, em uma pequena igreja, atendendo pacientes para renovação de receita, pequenas queixas, puericultura de crianças. Em média, os atendimentos chegavam a 30/40 pacientes por programa. Estes pacientes procuravam por sua própria conta o atendimento, não sendo previamente agendados ou convocados pela equipe de saúde.
Quarta à tarde era o turno de procedimentos, porém no período em que estive tivemos 2 quartas com reunião geral, 1 quarta com apresentação e discussão de caso clínico pela residência e somente 1 quarta com procedimento. Os procedimentos são em sua grande maioria exérese de lesões dermatológicas (fibroma mole, CBC etc).
Infelizmente no mês de abril tivemos muitos feriados em sextas feiras e não houve expediente na unidade, porém, nas sextas em que houve atendimento, fizemos pré natais. A equipe de residência possuía naquele período 53 gestantes, nenhuma morte materno infantil no ano de 2016 o que mostra uma grande eficiência do acompanhamento de gestantes e puérperas. Puérperas tinham consultas após o período de resguardo para avaliar sangramento, amamentação e método contraceptivo. Muitas optam pelo DIU, que é colocado na UBS, como método. São então agendadas para retorno e colocação de DIU (de preferência em período de sangramento menstrual) 60 dias após o parto. Acompanhei a colocação de 2 DIU, neste período, realizada pela Drª Joseane.
A rotina dos residentes é bem dividida entre parte teórica e parte prática, possibilitando momentos de estudo e discussão o que sempre enriquece o conhecimento de nós, médicos de família em formação. A minha percepção do programa de residência em medicina de família e comunidade de Curitiba é de que é bastante completo. Porém destaco a dificuldade em que os residentes formados encontram em conseguir emprego como MFC. Em Curitiba não existem OS como no Rio de Janeiro. Os médicos necessitam passar por concurso público para trabalhar em UBS, logo, o número de vagas é escasso. Segundo depoimentos de alguns residentes com quem estive, as opções são: fazer um programa como o Mais Médicos, seguir como preceptor, trabalhar em cidades nos arredores de Curitiba ou fazer uma nova residência. 

3 - Conclusão;

Curitiba é uma cidade diferente em todos os aspectos quando comparada ao Rio de Janeiro. É interessante ver como, mesmo o Brasil sendo um único país, o sistema único de saúde funciona de formas diversas em estados diferentes.
O estágio na Unidade Solitude foi bastante enriquecedor para mim no sentido de que pude conhecer um outro perfil populacional, aprender condutas e protocolos diferentes, compartilhar experiências vividas no Rio de Janeiro, saber como profissionais da saúde família trabalham em outras comunidades, ver o funcionamento de uma UBS e sua articulação com outros níveis de atenção em outro estado.
Trago alguns questionamentos em relação ao sistema no Rio de Janeiro quanto à organização do atendimento. Questiono se o acesso avançado não seria uma boa opção para a minha equipe na Clínica da Família Marcos Valadão. Talvez desta forma as demandas espontâneas diminuiriam, os absenteísmos em consultas agendadas diminuiriam, teríamos mais tempo para aplicar verdadeiramente ferramentas de medicina de família e comunidade em nosso dia a dia, assim como pude notar em Solitude.


  

Entrada da Unidade Solitude

Da esquerda para a direita: Drª Karen (R1), Drª Joseane (preceptora), Drª Emile (R2), Acadêmica Carolina, Drª Elis (R2)

VEJA TAMBÉM

0 comentários