Residente Camille Santa Rita relata seu estágio em Bolonha, Itália

07:14:00



A residente Camille Santa Rita do CMS Manoel José Ferreira realizou em maio na Universidade de Bolonha, na Itália na seu eletivo. Leia abaixo o relatório da experiência.

Relatório do estágio optativo
Residente: Camille Kautscher Santa Rita 
Período: Maio de 2017
Clínica: CMS Manoel José Ferreira
Local do estágio: Universidade de Bolonha - CSI - Centro de Estudos e Pesquisa em Saúde Internacional e Intercultural

Introdução:
A Itália é um dos países da Europa que tem um sistema de saúde de modelo público de caráter universal e descentralizado, e os italianos são uma das populações com maior expectativa de vida entre os povos europeus. Uma das regiões da Itália, a Emilia-Romagna, implantou estruturas chamadas Casas de Saúde (Casa della Salute) como estratégia de implementação da atenção primária na região.
Meu estágio optativo foi no mês de maio, na Università di Bologna, com a equipe do CSI - Centro de Estudos e Pesquisa em Saúde Internacional e Intercultural (Centro Studi e Ricerche in Salute Internazionale e Interculturale Dipartimento di Medicina e Sanità Pubblica Alma Mater Studiorum – Università di Bologna), na cidade de Bologna (região Emilia-Romagna - Itália). Eu acompanhei os trabalhos desta equipe que trabalha no departamento de Medicina e Saúde Publica da Universidade de Bologna.

Atividades desenvolvidas:
A equipe tem várias atividades, entre as quais pesquisa científica em unidades de saúde conveniadas, análise de dados em saúde, organização de eventos como conferências e seminários ligados a assistência em saúde, elaboração de propostas de intervenção e desenvolvimento de projetos em parceira com hospitais e casas de saúde.
Eu conheci duas Casas de Saúde, conveniadas com a universidade para trabalhos em conjunto. Uma delas é a Casa della Salute di Portomaggiore, em Portomaggiore, e a outra é Casa della Salute Cittadella S. Rocco, em Ferrara. Estruturalmente, as casas de saúde são como grandes policlínicas com serviços de atendimento primário, secundário e até alguns serviços de atendimento terciário, (como por exemplo diálise, que existe na Casa de Saúde de Ferrara). Da parte clínica, conta com médicos generalistas (MMGs) e ambulatórios de especialidades, como cardiologia, pequenas cirurgias, ginecologia, oftalmologia, oncologia, ortopedia, entre muitas outras.
Além disso, tem também departamento integrado de saúde mental, laboratório, exames de imagem, como radiografias, ultrassonografias, eletrocardiografia, ecocardiografia, entre outros. Existe ainda ambulatório de saúde do trabalhador, ambulatório de medicina alimentar e nutrição, e o setor de saúde publica veterinária.
Tive oportunidade de acompanhar várias reuniões da equipe de sanitaristas da universidade nas casas de saúde de Portomaggiore e Ferrara, encontros onde eram presentes chefias de serviços, todos muito envolvidos em melhorar os serviços socio-assistenciais.
Acompanhei discussões de casos complexos das Casas de Saúde, onde estavam presentes, além das chefias de serviços: geriatra, assistente social, enfermeira, psiquiatra, entre outros profissionais, mas faltava o médico generalista. Entre os profissionais presentes na reunião, era frequente o comentário entre todos eles, sobre a falta de integração dos médicos de família com o restante da rede. Este, coordenador do cuidado, deveria ser o elo de integração entre todos os profissionais lá presentes. Apesar disto, pude ver a importância da cooperação e trabalho em conjunto entre a equipe da universidade e os profissionais ligados ao serviço (médicos, assistente social e chefias).
Uma reunião em particular me chamou mais atenção, quando discutiam-se estratégias de participação social e capacitação de algumas pessoas da população para serem ‘sentinelas’ de saúde, ou seja, pessoas que são da população e seriam um elo entre a comunidade e os serviços assistenciais. Fiquei surpresa ao descobrir que uma das inspirações para a ideia da criação das ‘sentinelas’ eram os nossos agentes de saúde da estratégia de saúde da família no Brasil.
Apesar da unidade apresentar uma sólida estrutura de assistência à saúde, a medicina de família como modelo de assistência no contexto da atenção primária é ainda um pouco frágil. Os médicos de família (chamados MMG - medico di medicina generale) trabalham de forma independente e não integrada com os outros profissionais. A impressão que eu tive durante este mês de estágio é de que existe uma rede de serviços estruturada e plena de recursos, porém desarticulada entre si, especialmente no que se refere ao médico de família.
Outra dentre as minhas atividades desenvolvidas foi a de trabalhar junto com a equipe da universidade, com análise de dados de uma pesquisa que eles estão fazendo em um hospital conveniado. O objetivo não é só estatístico mas de pensamento crítico, de elaborar hipóteses e planejar intervenções e mudanças.
Uma das oportunidades que também tive durante o estágio foi de acompanhar as aulas da disciplina eletiva de Saúde Global, ministrada pelo prof. Dr. Ardigò Martino, compostas por excelentes discussões de temas como determinantes de saúde, bioética, e implantação da atenção primária. Participavam da aula alunos de diferentes cursos, como medicina, enfermagem, antropologia, entre outras áreas.
Uma das aulas em particular me chamou atenção, sobre modelos de atenção primária, quando fizemos uma análise de alguns modelos de implantação de atenção primária, dentre os quais a reforma da atenção primária no Rio foi um dos destaques, sendo ponto de curiosidade e de perguntas de vários alunos, curiosos sobre as nossas Clínicas da Família no Rio. Fui para a Itália estudar o sistema de saúde deles e descobri que eles estudam o nosso.
Conclusão:
A Itália tem um sistema de saúde universal, descentralizado e com ampla cobertura, e os pacientes têm livre escolha de médicos generalistas. Especialmente na região da Emilia-Romagna a população tem um bom acesso aos serviços sócio-assistenciais e sanitários através das casas de saúde. Contrastantemente ao bom funcionamento das casas de saúde, do sistema de saúde na região e do importante papel do médico de família, ainda existe uma grande dificuldade na articulação destes profissionais com o restante da rede. Os pacientes têm acesso a uma rede de assistência sócio-sanitaria plena de recursos, porém que ainda se comunica pouco entre si, necessitando desenvolver este aspecto na dinâmica de trabalho.

A minha experiência na Itália foi singular e extremamente proveitosa. Aqui na Itália acompanhei um trabalho consideravelmente diferente do meu. Acompanhei pesquisadores sanitaristas que lidam com pacientes, mas de maneira indireta, de uma forma mais ‘global’, através de dados estatísticos, de epidemiologia e de pesquisa, buscando soluções para problemas ainda prevalentes no seu sistema de saúde público e universal. 







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