Porto foi a cidade escolhida para estágio pela residente Rafaella Matera

05:22:00





Residente da CF Rinaldo de Lamare Rafaella Severo Matera realizou estágio em outubro na cidade do Porto, em Portugal. Leia abaixo as atividades desenvolvidas:

Residente: Rafaella Severo Matera
Clínica da Família: CF Rinaldo de Lamare
Local de estágio: USF Torrão - Porto – Portugal

Período: 02 e 31 Outubro de 2017

O estágio com duração de um mês foi realizado na Unidade de Saúde Familiar Torrão, no município de Lousada, que fica no distrito do Porto, Portugal. A USF Torrão é uma unidade modelo B, logo, apresenta maior amadurecimento organizacional, maior disponibilidade e flexibilidade no atendimento aos pacientes. O município tem aproximadamente 50 mil habitantes. A USF Torrão conta com oito médicos, responsáveis pelo atendimento de aproximadamente 1700 pacientes cada um, diferente do que acontece no Rio de Janeiro, os pacientes não precisam obrigatoriamente pertencer a área de abrangência da clínica. Os pacientes pertencem à lista do médico, logo, o paciente pode morar afastado da unidade de saúde e utilizar os serviços. Trabalham também, seis secretárias clínicas, que são responsáveis pelas marcações de consulta, pelos contatos indiretos e pelo gerenciamento das agendas médicas e de enfermagem. Além desses profissionais, atuam no momento, seis residentes em MGF (dois do quarto ano, um do terceiro ano e três do segundo ano).

Participei da reunião dos residentes de três unidades de saúde, que acontece sempre na primeira quarta-feira de cada mês, onde são discutidos temas relevantes para a prática diária da especialidade.

Durante o estágio, tive a oportunidade de acompanhar a equipe da Dra Manuela Barros, que exerce a profissão de médica de família há mais de 30 anos e sua lista praticamente não mudou desde que iniciou o trabalho ou seja, é a médica dos avós, pais e filhos. A Dra Manuela e suas residentes trabalham todos os dias, de segunda a sexta, no total de 35 horas semanais (as residentes cumprem 40 horas - essas 5 horas a mais funcionam para serem feitos os contatos indiretos - renovação de receita, solicitação de exame, registro de exames no prontuário eletrônico).

As consultas são subdivididas em:
-       Consultas Abertas (o que chamamos no Rio de Janeiro de demanda livre) são realizadas todos os dias, em momentos diferentes, pelos médicos escalados, o que significa que nem sempre um paciente que tenha uma queixa aguda será atendido pelo médico de referência. Essas consultas são realizadas a cada 10 minutos, para queixas que se iniciaram em até 72 horas e as marcações são feitas no mesmo dia;
-       Consultas de Saúde Infantil, que são agendadas da seguinte forma, até os 15 dias de vida, até 01 mês, aos 2,4,6,9,12 meses e a partir de então, são anuais (0 a 18 anos) e tem caráter preventivo. As consultas são realizadas em conjunto com o enfermeiro, que aplica as vacinas caso estejam indicadas, avalia peso, altura e curvas de crescimento e ensina sobre alimentação e cuidados necessários em cada faixa etária. Logo em seguida, a criança é atendida pelo médico, que faz o exame físico completo direcionado para a idade. O que mais me surpreendeu nessa consulta, foi a sala, que é interligada, ou seja, o enfermeiro ao terminar a consulta, abre uma porta que dá acesso à sala do médico, trabalhando assim, em conjunto.
-       As consultas de Hipertensão, que duram 20 minutos, muito parecidas com as que realizamos em nosso programa. Os médicos realizam exame físico, abordam hábitos alimentares e verificam a receita;
-       As consultas de Diabetes Mellitus, que assim como acontece na saúde infantil, são feitas em conjunto com os enfermeiros, que avaliam peso e pressão arterial. Ao médico, cabe realizar o ajuste de medicações, avaliação dos exames e orientações em relação às possíveis complicações do DM.
-       As consultas de Saúde do Adulto, que tem duração de 15 minutos e abrangem todos os tipos de doenças e queixas. Como já era esperado, raros foram os casos de doenças infecto-contagiosas. Percebi que existe uma prevalência de casos oncológicos e de saúde mental, principalmente a depressão.
-       As consultas de Puerpério, que acontecem entre 4 a 6 semanas após o parto e são importantes pois os médicos avaliam os métodos contraceptivos e como a paciente está após o parto.
-       O Planejamento Familiar é uma consulta para mulheres em idade fértil e também pode ser realizada em conjunto com o parceiro, para que o médico possa aconselhar e orientar o casal sobre os planos de terem filhos. São realizados exames complementares e avaliação de possíveis doenças hereditárias. Essas consultas também são realizadas em conjunto com a equipe de enfermagem.
-       As gestantes de baixo risco são seguidas pela USF, com consultas  e ao completarem 35 semanas, são enviadas para avaliação com a maternidade e então, passam a ser seguidas até o parto.
-       As visitas domiciliares acontecem uma vez por semana e os pacientes são selecionados com base na escala de Barthel, que avalia a funcionalidade do idoso. São ao todo, 20 domicílios por médico. Diferente do que acontece na minha unidade, os domicílios são feitos no carro próprio da médica ou de táxi, pois, como dito anteriormente, as equipes não são delimitadas por território, então algumas casas ficam mais distantes da unidade.

Ao final do estágio, constatei que as consultas abertas corresponderam a 33,7% do total e as consultas de saúde do adulto, a 26,3% do total de consultas realizadas no período. Fato que me causou certa curiosidade, pois esperava encontrar mais consultas de rotina médica das patologias mais prevalentes do que consultas abertas, devido ao longo vínculo entre médicos e pacientes.

Sem dúvida alguma, o estágio foi uma experiência valiosa no campo não só profissional, mas também pessoal. Quando optei por uma cidade diferente do Rio de Janeiro, estava em busca de aprender como o estilo de vida, o longo vínculo médico-paciente e as patologias mais prevalentes afetam o dia a dia da nossa profissão.

Aprendi que vale a pena investir na relação com o paciente, valorizar o conhecimento prévio sobre a família e ser o médico de confiança e respeito.
Foi incrível conhecer de perto a Medicina de Família tão bem sedimentada e, perceber que quando comparado com a realidade do Rio de Janeiro, onde muitas vezes aguardamos meses por uma tomografia, ou não temos medicação na unidade, ou não termos fácil acesso ao prontuário do paciente no hospital, a essência é a mesma, como descrito pelo WONCA Europa: ser normalmente o primeiro ponto de contato médico com o sistema de saúde, proporcionando um acesso aberto e ilimitado aos seus utentes e lidando com todos os problemas de saúde, independentemente da idade, sexo, ou qualquer outra característica da pessoa em questão.

O estágio fez crescer em mim uma vontade contínua de conhecer os pacientes e me dedicar, cada vez mais, a ser uma profissional comprometida e eficiente para com a comunidade assistida.





VEJA TAMBÉM

0 comentários