Descubra a marcante experiência do estágio do residente Felipe Augusto - Pará - abril 2018

08:38:00




O residente do programa Felipe Augusto Morais de Souza, da CF Ricardo Lucarelli de Souza realizou seu eletivo no mês de abril em Santarém, Pará. 
Descubra essa marcante experiência no relato das atividades desenvolvidas durante o estágio.

Residente:Felipe Augusto Morais de Souza 
Unidade de Saúde: CF MO Ricardo Lucarelli de Souza
Período do estágio:abril de 2018
Local:  Santarém -Pará

Santarém é um dos maiores municípios do estado do Pará, sendo o terceiro mais populoso, com cerca de 300.000 pessoas. Localiza-se na região oeste do estado, quase na metade do caminho entre Manaus e Belém, capitais do Amazonas e Pará, respectivamente. Situa-se na denominada área Amazônia legal, na confluência dos rios Tapajós e Amazonas, sendo conhecida como a Peróla do Tapajós, e o clima é predominantemente quente e úmido, característico de região de floresta tropical próxima a linha do Equador. É um município extenso geograficamente, há uma área urbana importante, com comunidades rurais e ribeirinhas muito distantes do centro urbano. O principal meio de transporte é fluvial, com embarcações de diversos tamanhos e tipos. É comum navegar pelo rio durante 3h e ainda chegar num distrito de Santarém.

Sua principal atividade econômica advém do setor primário, com o extrativismo de produtos típicos da região e agricultura (açaí, castanhas, frutas regionais), além da pesca, em que os peixes constituem parte importante da refeição da população (pirarucu, tambaqui, dourado, filhote, etc). É necessário destacar que o avanço das fronteiras agrícolas da monocultura de soja, aliada à pecuária bovina, que tem partido do estado do Mato Grosso em direção à Amazônia, pode ser observado em Santarém (uma das cidades mais ao norte do estado). O desmatamento das florestas e seus impactos já são sentidos pela população de Santarém. O turismo também é uma importante atividade econômica, principalmente pelo distrito de Alter do Chão, local do estágio na atenção primária. Alter do Chão tem cerca de 10 mil habitantes e é responsável pelas mais belas paisagens de Santarém. Suas praias já foram escolhidas pelo jornal inglês The Guardian como a mais bela praia de água doce do mundo e a presença de ‘gringos’ já é muito usual na pequena vila de Alter.

Assim como em todo o Brasil, a situação socioeconômica da população de Santarém reflete o abismo social existente historicamente: uma pequena parcela da população com alto poder aquisitivo e a maior parte do povo nas camadas sociais inferiores. Vemos caminhonetes e até lanchas e jetskis nas margens dos rios, mas a maior parte das pessoas vive com 1 ou 2 salários mínimo. Ainda assim, a impressão que tive é que as pessoas mais pobres lá vivem um pouquinho melhor que as pessoas mais pobres no Rio. O custo de vida não é tão alto, a alimentação com alimentos comuns da região (peixes, farinha e derivados da mandioca) é relativamente acessível.

A cultura é fortemente marcada pelo meio de vida ribeirinho. É um povo acostumado a viver na beira d’água, em água com abundância. Todo mundo anda de barco e sabe armar uma rede. O fenótipo indígena está muito presente, apesar de a identidade indígena ser uma questão complexa. Comunidades com fortes tradições de povos originários se identificam como comunidade ribeirinha, enquanto outras comunidades com menor influência histórica se dizem indígenas.

Sobre a rede de saúde no município, posso dizer que a mesma não é destoante do cenário regional amazônico, marcada pela falta de estrutura e precarização da rede pública, indisponibilidade de medicamentos básicos, com baixa cobertura assistencial em todos os níveis e com uma rede privada que tenta preencher as lacunas. São inúmeros laboratórios privados na cidade que têm convênio com o SUS, além da existência de diversas ‘clínicas populares’. Esta difícil realidade faz com que as pessoas estejam habituadas a pagarem por saúde: compram remédios, pagam por exames e procedimentos, num cenário que parece improvável de mudar.

 
Atividades desenvolvidas no estágio

Hospital Municipal de Santarém

Tive uma curta experiência de 3 dias no Hospital Municipal de Santarém, acompanhando o corpo clínico da Infectologia. É o principal serviço hospitalar público do município, sendo a única porta de entrada em Urgência e Emergência. Isto faz com que toda a demanda da região oeste do Estado seja drenada para este serviço. Não é incomum usuários relatarem viagens de barco de horas e até dias para chegar no HSM. Pela sobrecarga da demanda, o serviço funciona no limite, salvo engano com mais de 200 leitos, mesmo com a carência estrutural constante (infelizmente comum aos outros níveis de atenção à saúde em toda a região amazônica). Ainda assim, é um serviço importantíssimo, sendo a referência para acidentes com animais peçonhentos e doenças infecto-parasitárias. Além disto, funciona a maternidade anexada ao hospital e cirurgias geral e especializadas, como neurocirurgia e vascular. Nos dias que estive no HSM, acompanhei o trabalho no Pronto Socorro da unidade, recebendo usuários que demandassem avaliação da infectologia. Foram diversos casos de acidentes ofídicos, variando de gravidade e condutas a serem tomadas, além de casos de doenças infecciosas comuns da região: hanseníase e reações hansênicas, HIV e hepatites virais, tuberculose e um caso de paracoccidioidomicose, doença incomum no perímetro urbano da cidade do Rio de Janeiro.

Unidade de Atenção Primária em Alter do Chão

Em Alter do Chão, pude acompanhar o trabalho da médica de família e comunidade Kamila, que já trabalha na comunidade há mais de 02 anos. Importante notar as grandes diferenças entre o contexto do trabalho lá em comparação ao Rio de Janeiro:
A área de cobertura da ESF (Figura 2) é muito grande, na casa de quilômetros de distância. São 11 microáreas, distantes da unidade de saúde. Isto tem uma repercussão prática enorme, modifica completamente o acesso das pessoas à assistência e faz com que a equipe se organize de uma forma diferente do que se costuma nos centros urbanos.
O atendimento médico realizado pela Kamila na unidade de saúde, se dá através do acesso avançado, em que praticamente todos os usuários que procuram assistência são atendidos. Isso é possível, em parte, pela integração com o ensino, com a presença de estudantes de medicina e residentes, o que aumenta a capacidade de atendimento. O acesso avançado se torna essencial neste contexto de grandes distâncias, a pessoa precisa ser atendida ao chegar à unidade, pois percorreu um grande trecho de terra ou de rio para chegar ali. Durante a semana, Kamila tem turnos de atendimento na unidade e um dia de atendimento numa das comunidades mais distantes. Em cada semana, o atendimento é realizado numa comunidade diferente, em que as pessoas dificilmente procuram a unidade por ser muito longe. O atendimento é realizado onde é possível, num barracão da comunidade, numa escola ou numa igreja, para onde as pessoas se deslocam e se reúnem. Ali, é feito a pesagem das crianças para atualização do cadastro do Bolsa Família, assim como ocorre no Rio de Janeiro e outros lugares, distribuição dos poucos medicamentos disponíveis para a população e se faz o levantamento de quantas pessoas precisam de atendimento médico, que dura o período da manhã até o almoço. Detalhe importante: o almoço é organizado e preparado pela comunidade e, nas duas ocasiões que presenciei, foram almoços deliciosos para uma equipe de mais de 10 pessoas, entre ACS, enfermeira, médicos e estudantes. No período vespertino, visitas domiciliares são feitas às pessoas da comunidade com dificuldade de se locomover ao local de atendimento. 

Um aspecto importante da assistência em saúde é o papel de enfermeiros e técnicos de enfermagem em procedimentos. Em outros locais do país onde procedimentos como sutura de feridas de pele e coleta de material para colpocitologia oncótica são restritos a médicos (exceção do preventivo, que pode ser coletado por enfermeiros), os técnicos executam tais tarefas. Apesar de ser uma infração à legislação, é preciso parcimônia para avaliar esta situação. Nos rincões do Brasil onde há uma carência histórica de médicos, que persiste ainda hoje, alguém precisa fazer esses procedimentos. Se isso acontece em Alter e Arapixuna (que descrevo abaixo), distritos de Santarém, minimamente acessíveis, imagine nos locais mais remotos.

Arapixuna

Durante uma semana, acompanhei um médico de família na comunidade de Arapixuna, localizada às margens do rio Amazonas, há 2 horas de barco do centro de Santarém. Por conta da distância, não é possível o translado diário entre Arapixuna e o centro urbano. Assim, Fabrício, único médico da comunidade, vai para Arapixuna na segunda-feira e fica na comunidade até quinta-feira. Fabrício fica, neste período, na casa de uma família que mora próximo à unidade de saúde, enquanto a ‘casa de apoio’ do médico da comunidade não fica pronta. A comunidade está acostumada a ausência do poder público municipal e a mesma se organiza para resolver suas demandas e problemas. Os moradores se reuniram e construíram o trapiche para embarque e desembarque das navegações, assim como estão reformando o centro comunitário e a casa de apoio do médico. Durante a estadia, compartilhei com Fabrício a hospedagem na casa de Ilze e seus filhos, que nos acolheram muito calorosamente. Arapixuna é um distrito de Santarém, com cerca de 6 mil habitantes, espalhados por cerca de 8 comunidades, muito distantes entre si. Assim como Kamila, Fabrício trabalha com acesso avançado nos turnos que está na unidade e tem um dia na semana de atendimento numa comunidade mais longe da unidade. A falta de estrutura é mais marcante do que em Alter, não há transporte para Fabrício se locomover, ficando a cargo das comunidades se organizarem para providenciar um meio de buscar o médico.

Em Arapixuna, pude perceber mais marcadamente a influência dos saberes populares no processo de adoecimento. É muito comum o uso de chás e alimentos típicos da região para tratamento de enfermidades; praticamente todas as pessoas fazem uso de algo antes de procurar o médico. Aqui, pude conhecer a figura do ‘puxador’. Puxador é uma pessoa da comunidade que literalmente puxa membros e partes do corpo que estão ‘fora do lugar’. Consertam ‘espinhela caída’, colocam a ‘mãe do corpo’ de volta ao umbigo, entre outras façanhas. Enquanto palpava parte da aorta abdominal de uma senhora de 70 e poucos anos e me perguntava se poderia ser um aneurisma de aorta, ela me responde risonha: “Essa é a mãe do corpo, menino! Todo mundo tem!”. Além de puxadores, há benzedeiras, curandeiras e massagistas, pessoas conhecidas na comunidade e parte da rede informal de saúde. A demanda por atendimento médico é bem menor em Arapixuna, com até 10 atendimentos por turno. Por conta da rotatividade de médicos no local, vimos vários casos de doenças crônicas como hipertensão e diabetes com pouco controle clínico. Fabrício está trabalhando nesta comunidade há pouco mais de 1 mês e, nesse período, já iniciou insulina para diversas pessoas com diabetes descontrolado. Também fizemos visitas domiciliares a idosos da comunidade. A rede é o local predileto para se dormir e tirar aquela soneca durante o dia. Num local completamente diferente dos grandes centros urbanos, não há estresse, poluição e violência; a saúde mental das pessoas parece melhor que a nossa.

Conclusão
Foi uma experiência ímpar. Além da paisagem deslumbrante da região norte, o contato com as pessoas foi fantástico. A figura do médico ainda se impõe envolta de autoridade e poder, mas presenciei relações mais afetuosas, respeitosas e horizontais com os profissionais que observei. O senso de coletividade das pessoas é uma forma de superar as adversidades num contexto de falta de estrutura e acesso à saúde e outros direitos negados. Os vizinhos se ajudam, as pessoas se unem para resolver os problemas da comunidade, vive-se menos individualmente. A questão geográfica é determinante no processo de trabalho. Totalmente diferente da situação do meu trabalho: na unidade da comunidade do São Carlos, minha área de abrangência é a mais distante da unidade e ainda assim faço visitas domiciliares a pé; enquanto são necessários barcos ou caminhonetes para se chegar em algumas famílias em Alter do Chão e Arapixuna.
Fiquei feliz por encontrar médicos tão competentes na atenção primária. No Brasil, vemos um cenário em que, quanto mais nos afastamos dos grandes centros urbanos, pior a qualidade da assistência, seja por conta da falta de estrutura como por competência do profissional de saúde, infelizmente. Muita alegria em ver profissionais como Kamila e Fabrício atuando, com a alta resolutividade e formação técnica, fazendo procedimentos como agulhamentos para dor crônica que muitos profissionais das capitais não têm essa formação. Além da capacidade técnica, compromisso moral com a saúde das pessoas no serviço público, fazendo o melhor trabalho possível num contexto de total falta de apoio e interesse da gestão. Conhecer o trabalho de médicos de família e comunidade num ambiente tão diferente do qual trabalho, periferia de um grande centro urbano, é uma experiência que recomendo a todos os residentes.


Unidade de Saúde em Alter do Chão

 
                                       Mapa das microáreas da ESF de Alter do Chão

Arapixuna



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