Estágio em medicina rural foi a escolha do residente Gustavo Amorim

07:58:00



Residente do programa Gustavo Amorim da CF Zilda Arns realizou estágio em março em Santarém, Pará. Abaixo o depoimento do residente.

Residente:Gustavo Dias Santiago de Amorim
Unidade de Saúde: Clínica da Família Zilda Arns
Período de estágio: março 2018
Local: Alter do Chão - Santarém

Já ouvi algumas pessoas que visitaram a Amazônia dizerem que todo brasileiro deveria, 
pelo menos uma vez na vida, ter a oportunidade de ir pra região. Sabendo da diversidade que temos no país e buscando entender a maneira como ela se reflete no nosso sistema de saúde, resolvi aceitar esse conselho e marquei a opção de comunidades ribeirinhas para o estágio eletivo da residência. Foi uma das decisões mais acertadas que já tive.

Santarém é uma cidade no interior do Pará banhada pelos rios Tapajós e Amazonas que 
formam um daqueles encontros de águas que vemos nos livros de geografia. Alter do Chão é um distrito de Santarém, onde belas praias encantam os olhos dos turistas, que muitas vezes acabam por escolher o local para seguir a vida ou passar algum tempo, e trazem sustento pra comunidade local, carregada de tradições ribeirinhas e indígenas, principalmente das tribos Borari do Tapajós. Nesses dois cenários dividimos o mês de imersão no Pará. Durante o tempo na cidade, fomos recebidos e integramos a equipe de infectologia do Hospital Municipal, quem tem parceria com a USP. Com a facilidade de contar com um apartamento do lado do serviço, a rotina já nos era conhecida dos tempos de internato. Acordávamos cedo e, após um banho de água fria, partíamos para a enfermaria ou pronto-socorro e cada residente evoluía seus respectivos pacientes e aguardava para passar a visita. De tarde, após o almoço, atendimentos ambulatoriais. O hospital funciona, através do pronto socorro, como uma das principais portas de entrada para o SUS na região, recebendo pacientes de varias cidades do entorno. A atenção primária não tem uma cobertura satisfatória e não consegue cumprir seu papel, o resultado, já esperado, é o abarrotamento do terciário com casos que poderiam ser manejados com menor custo e mais segurança para o paciente. Principalmente no pronto-socorro, onde o cenário parece caótico, pudemos ver a importância da balança do sistema estar bem equilibrada. As dificuldades, no entanto, são ótimas para o aprendizado. O serviço de infectologia conta com 5 preceptores diretos. Não faltaram discussões produtivas sobre as patologias, que as vezes extrapolavam a área da infectologia, e terapêutica, quando era 
necessário compreender o uso racional de antibióticos com o detalhe de que algumas vezes o tratamento precisava ser alterado pela falta dos mesmos no estoque. Desmistificamos a dificuldade em fazer punção de liquor na enfermaria e conseguimos pegar até uma certa mão do procedimento. Além disso, nos ambulatórios, tiramos duvidas sobre os seguimento de pacientes com HIV/SIDA e hepatites virais e aprendemos a manejar casos de leishmaniose cutânea.

A vila de Alter é um lugar inesquecível. O posto de saúde enfrenta muitos desafios para 
seu funcionamento. Os principais problemas são a falta de medicamentos e materiais, dificuldade  para acesso a exames e a grande abrangência da equipe: apenas para mais de 7 mil usuários.  Apesar de tudo o atendimento é referência de resolutividade na região. A Dra. Kamila conduz os  residentes e os internos ensinando com excelência o método clinico centrado na pessoa, o  raciocínio diagnóstico e a integralidade da rede. Um paciente com dor miofascial, por exemplo,  recebe agulhamento conforme a indicação no momento da consulta, sem precisar de  agendamento, e assim se faz com a maioria dos procedimentos. A falta do prontuário eletrônico  não impede que os registros da consulta sejam feitos com qualidade e objetividade, porém o lançamento da produção manualmente é uma burocracia que desconhecíamos. As visitas domiciliares e nas comunidades foram momentos únicos em que pudemos conhecer de perto a realidade das comunidades mais distantes. O que tornou a experiência mais diferenciada também foi morar por um tempo na comunidade assistida, isso faz muita diferença no reconhecimento e entendimento da população, gerando uma sensação de pertencimento e encaixe no mecanismo social.

O estágio foi além do combinado quando fizemos uma viagem de barco de 3 dias pelo 
Rio Arapiuns com o projeto Saúde e Alegria para realizar atendimento nas comunidades 
ribeirinhas. O projeto foi idealizado na década de 80 e compreende ações relacionadas a saúde, educação, arte e empreendedorismo. Nos dias em que estivemos juntos, a promoção a saúde aconteceu por meio de palestras, palhaçadas de circo, consultas na sombra de árvores e muita festa, que por um momento nos fez até esquecer a dura realidade de que uma das comunidades não recebia visita de um médico há 3 anos. 

Voltamos com a sensação de que o tempo passou muito rápido e de que crescemos 
muitos como profissionais. A medicina nos ambientes rurais é um cenário surpreendente, 
desafiador e com necessidades urgentes e passou a s ser uma das mais tentadoras 
possibilidades de carreira para após a residência. 







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