Residente do programa realiza estágio na Índia

06:18:00


Residente: Thaís Bandeira de Carvalho
Unidade de Saúde: Clínica da Família Assis Valente
Período do estágio:abril de 2018
Local: zona rural rural de Udaipur- Rajastão - Índia

A R2 Thais Bandeira de Carvalho da CF Assis Valente realizou em abril seu eletivo em saúde rural na Índia. Leia abaixo a marcante experiência vivida pela residente.

Quando soube da conferência mundial de saúde rural promovida pela WONCA na Índia e que esta aconteceria na época destinada ao meu eletivo, agarrei a oportunidade de um estágio em uma cultura completamente diferente da minha. Meu intercâmbio foi acordado após contato por e-mail com a organização do congresso, que me colocou em contato com a SOJOURN (organização sem fins lucrativos que proporciona intercâmbios em áreas rurais da Índia) e com a Basic Healthcare Services (BHS),ONG que possui quatro clínicas no Rajastão – uma clínica em parceria com o governo federal da Índia e outras três totalmente custeadas por parceiros da ONG. Estive lotada na zona rural de Udaipur, conhecida como “cidade dos lagos”, localizada no Rajastão, um dos maiores estados da Índia, e também um dos mais quentes e secos, com temperaturas que chegavam aos 42 °C e umidade do ar em torno de 15%.

Lá, estive durante uma semana no Primary Healthcare Center (PHC) Nithauwa,centro de saúde de referência que atende uma comunidade tribal com cerca de 25.000 pessoas. O governo federal indiano fornece todo o estoque de medicamentos, a UNICEF oferece todas as vacinas e a BHS financia todos os demais custos, incluindo os salários. Os atendimentos acontecem em horário comercial, mas o centro funciona 24/7 para emergências, tendo sempre um enfermeiro de plantão. A estrutura do PHC oferece sala de espera, farmácia e sala para estoque de medicamentos, salas de atendimento, laboratório, sala de parto, sala para exame ginecológico, 6 leitos para pacientes internados (principalmente para acompanhamento pós-parto), sala de reuniões e sala de repouso para o staff. Logo no primeiro dia de estágio, pude acompanhar um parto e cuidados neonatais totalmente realizados com sucesso por enfermeira. Além disso, acompanhei grupo de gestantes, vários momentos de aconselhamentos com mulheres e crianças na comunidade, campanhas de vacinação e consultas médicas – cujas principais patologias diagnosticadas e acompanhadas foram desnutrição severa, tuberculose, anemia, HIV, doenças respiratórias, malária e dermatofitoses. Todos os membros da equipe realizam atividades além das suas funções e exercem competências culturais com a comunidade tribal, respeitando suas tradições, mas também esforçando-se para a promoção da saúde da população por meio da conscientização sobre práticas adequadas de higiene e nutrição.

Junto ao PHC, existem 5 subcentros, cada um atendendo cerca de 6.000 pessoas. São estes: Solanj, Gandi, Pal Nithauwa, Khanan e Harvar. Neles, atuam um enfermeiro, um técnico de enfermagem e seis agentes de saúde (chamadas de Ashas). Casos mais complexos são referenciados ao PHC. Durante toda essa semana, estive hospedada na casa da enfermeira do PHC, que me ajudou com a dificuldade com comida apimentada, e pude acompanhar o dia a dia de uma família indiana, o que fui um bônus no meu estágio.

Além do PHC Nithauwa e dos subcentros, existem as AMRIT clinics localizadas em áreas rurais remotas. AMRIT é uma palavra sem tradução exata do Hindi, que significa algo como “imortal” e “puro”. As três clínicas se chamam Manpur, Bedawal e Ghated. O corpo de funcionários é composto por enfermeiro, técnico de enfermagem, agentes comunitários masculino e feminino, e recebem atendimento médico uma vez por semana. Também funcionam em regime de 24/7 e são totalmente custeadas pela BHS e seus parceiros. A ONG está finalizando os trâmites para abertura de uma quarta AMRIT clinic ainda nesse mês de maio.

Durante esse tempo, além de acompanhar as atividades das clínicas, pude conversar um pouco sobre a importância da presença de Médicos de Família nesses locais, dando um feedback sobre a organização do serviço na perspectiva da MFC, e ofertar um pequeno treinamento sobre retirada de DIU.

Importante ressaltar que o hospital de referência mais próximo fica em Udaipur, que se localiza a no mínimo 70 km de distância do PHC em estrada carroçal com muitos buracos - e compartilhada com vacas, búfalos e cabras. O sistema de saúde indiano dispõe de serviço de emergência com ambulâncias acionadas através do número de telefone 108.

Além dessa vivência, participei da 15ª Conferência de Saúde Rural da WONCA em Nova Delhi, capital da Índia. Tive a oportunidade de apresentar o Sistema Único de Saúde brasileiro e falar sobre a atual situação da Medicina de Família e Comunidade no nosso país. Além disso, apresentei um pequeno workshop sobre reabilitação de vítima e abusador em casos de violência doméstica junto com a médica caribenha Amber Wheatley. Pude conhecer grandes nomes da Medicina Rural no Brasil, como as médicas Mayara Floss e Magda Almeida, e um grupo de estudantes muito engajadas que participam do GT Rural da WONCA. De fato, chegaram a nos perguntar como eram organizados os congressos rurais antes da presença no Brasil, tão impactante que foi a nossa participação.

Com essa experiência, aprendi que 60% do nosso país é rural e que apenas 1 em cada 4 médicos escolhem trabalhar na zona rural. Alcançar esses locais é essencial para que a saúde brasileira realmente seja universal. Vi também como é importante que os profissionais da saúde sejam polivalentes e ousados em áreas rurais e rurais remotas para garantir serviços de saúde eficientes e resolutivos. A Índia me surpreendeu em muitos aspectos, principalmente no pensamento ecológico e sustentável de todos os cidadãos, pelas imensas desigualdades sociais ainda existentes e pelos esforços de grandes trabalhadores para ampliar o acesso à saúde da população indiana. Por isso, penso que o tema da conferência não poderia ter sido melhor escolhido: “Healing the heart of healthcare: LEAVING NO ONE BEHIND!”.








VEJA TAMBÉM

0 comentários