Relato da experiência vivida pela residente Janine Grigoli nos Consultórios de Rua

07:10:00



A residente do programa Janine Cristina Gonçalves Grigoli da CF Helena Bessermann fez seu eletivo em março nos consultórios de rua/ Clínica Vitor Vala com a equipe da Dra. Valeska Antunes. 
Confira abaixo o relato sobre a experiência: 

Sempre, literalmente sempre, me interessei ao cuidado dos moradores de rua. Em minha cidade trabalhei em uma pastoral chamada “servos da misericórdia”, onde prestávamos assistência com roupas, banho, alimentação, todas as sextas-feiras. Atendimento começa na “casa das irmãs” e terminava na rua, onde íamos atrás daqueles que por algum motivo não foram até a casa e levávamos marmita. Participei deste trabalho dos 14 aos 23 anos. Acompanhei o ciclo do programa que ao final estava interligado com a universidade ao curso de enfermagem, prestávamos atendimento de saúde e intermediávamos internações. Vi o perfil da população de rua de minha cidade mudar, a princípio maioria senhores e senhoras que estavam na rua por histórias diversas, eram etilistas e a maioria estavam na rua porque queriam estar. Os anos foram passando, estes se tornaram a minoria, a população transformou-se em uma população jovem, viciada em drogas, principalmente Crack e estavam na rua por muitos motivos, todos eles ligados ao uso. Os moradores vizinhos na casa de atendimento começaram a reclamar, brigas e roubos começaram acontecer, projeto foi enfraquecendo até ser fechado. E em meu coração ficou uma grande indagação: como cuidar dessa população? É possível? Como garantir tratamento medicamentoso para uma população que não come, que se perde no tempo usando droga dentre outros costumes que impactam muito negativamente no autocuidado. 

Ao chegar no Rio de Janeiro adentrar sua complexidade, suas misérias, suas mazelas, seus contrastes, descobri a existência do consultório de rua e fiquei muito curiosa para saber como funcionava.

Aprendi que Consultório na Rua é projeto iniciado em 2010 pela Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, como uma das estratégias de fortalecimento da Atenção Primária à Saúde. O dinheiro é fundo a fundo vindo do ministério da saúde, o município repassa e tem como única obrigação custear Van e motorista. Seus objetivos são: promover saúde trabalhando na perspectiva da redução de danos, ampliar o acesso da população em situação de rua a atenção primária, diagnosticar, tratar, acompanhar e prevenir doenças além de auxiliar acesso ao sistema de abrigamento, obtenção de documentos civis e demais benefícios sociais. O trabalho das equipes acontece nas ruas e nas clínicas de família, as equipes são responsáveis pelo cuidado integral dos usuários e são formadas por: médico, enfermeiro, dentista, terapeuta ocupacional, psicólogo, assistente social, técnico de enfermagem, técnico de saúde bucal, dentista, agente social, agente comunitário de saúde. A equipe em que tive a oportunidade de acompanhar e muito coesa, trabalham verdadeiramente em equipe, dividem o cuidado, trocam informações entre si discutindo sempre e visam sempre o que é melhor e viável aquele paciente, desenvolvendo plano terapêutico singular a todo momento. A equipe do consultório de rua é muito ativa na rede SUS, eles transitam de forma facilitada entre todos os níveis de atenção. 

É uma equipe fortemente ligada assistência social, aos CAPS, aos hospitais (fomos visitar paciente que ficou internado após espancamento no hospital), articulamos documentação, Abrigo, internação, encaminhamos ao CAPS I, CAPS AD, UPA, articulamos cuidado com outras clinicas da família, principalmente os moradores de rua da rua Flávia Farnese. Nesta rua, em 2011 começou a construção e crescimento de barracos improvisados, pequenos, um ao lado do outro para uso de drogas apelidado de “megacracolandia”, há moradores fixos e até um “chefe”, muitas outras pessoas passam por ali, ficam dias, meses e depois vão embora. Visitar este espaço pra mim foi uma experiência surreal, multissensorial, ver aqueles jovens se drogando, magros, caquéticos, doentes, dormindo em meio as moscas, com olhar sem brilho... no momento da visita começou temporal, em poucos minutos tudo se alagou, o cheiro terrível, água suja caindo por todos os lados, alguns vinham a busca de algum atendimento, mas, na maioria do tempo me senti invisível. Parecia que não estava ali, eles continuaram usando droga, dormindo ou cuidando das lonas e Dra Valeska fazendo uma, real, busca ativa de seus pacientes. Fiquei observando a arquitetura, a engenharia da construção e pensei “Jesus, é impossível que você esteja aqui” quase que instantaneamente ouvi no coração “não só estou aqui como também lhe trouxe aqui”.


Além, das consultas no consultório, curativos, consultas na rua, percorrer a rede, participei do fórum dos consultórios de rua do estado, percebi que é possível SIM cuidar dessa população, mais que isso, elas querem ser cuidadas, elas precisam ser cuidadas e o cuidado é direito, que eu espero um dia ser inalienável. Mas que isso, cuidar dessas pessoas não é impor o que temos como vidas/ações “corretas”, mas oferecer o cuidado que elas necessitam dentro no quadro/situação em que estão inseridas, sem julgamos, sem preconceitos, é despir-se da moralidade e da ânsia de diagnosticar e prescrever para simplesmente ESTAR ALI, OUVIR, CHAMAR-SE A SI, PROPOR, OLHAR... CUIDAR.

Reflexões pessoais
Antes de iniciar o estágio meu pai me mandou uma foto de um terreno, feio e aparentemente abandonado perto de sua casa.



Contou que foi movido subitamente por uma curiosidade de ver por dentro, ficou surpreso pois ali se reuniam grande variedade de flores, cores e borboletas. Logo sentiu no coração que era uma revelação do olhar de Deus. O que julgamos feio por fora Deus vê e cultiva belas flores por dentro. Ficou emocionado no cuidado que Deus teve nesta plantação especialmente porque fez meu pai enxergar tudo isso para compartilhar comigo, o texto dele é emocionante. Algumas fotos das flores.

 



Passei por todo o estágio... a cada dia vendo coisas terríveis, questionando a existência de Deus, sua soberania, revoltada com tantas histórias de abandono e desamor, mas as palavras de pai ecoavam dentro de mim.

Hoje, na missa, pedi perdão a Deus pelos questionamentos e por não ter feito nada, absolutamente nada, de bom durante toda quaresma. Durante a homilia padre explicou sobre a campanha fraternidade, este ano tem como tema “Fraternidade e Políticas Públicas” e o lema “Serás libertado pelo direito e pela justiça”. (Is 1,27), pediu para que olhássemos para o feio, lutar por quem não tem direito a moradia, saúde, educação, olhar para o outro, o dito feio e excluído e enxergar beleza, ser cristão.

Neste momento todas as consultas vieram na mente, o carinho com que conversei, mesmo quando estava um pouco brava com a pessoa por se deixar estar naquela situação, o carinho que coloquei no curativo que fiz, o desespero que senti em oferecer amor, atenção aqueles que estavam ali. Percebi que fiz o exercício proposto; no meu cansaço, na minha fraqueza Deus consegue cumprir em mim os planos Dele. Sei que após este estágio sou uma profissional mais humana e uma pessoa menos mesquinha e autoritária. E sinto, no coração, um enorme desejo de fazer mais!!

Obrigada equipe: Valezka, Marcelo, Anderson, Dani, Daniel, Motorista vocês foram de grande importância para meu crescimento, que nos reencontremos em breve.

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